segunda-feira, abril 10, 2006

A vida é uma imensa grelha

reportagem de aqui há atrasado referente a uma refrega de aniversário familiar, por afinidade, em universo de soberba carnívora e mimos de carvão. Refere-se aqui a visita ao mítico porque pouco blogosférico "Churrascão 2", sítio de arredores sobre o qual não se bloga, logo não existe para a intelligentsia a quem ainda não se apalpou o QI. Ou a maminha. Ou mesmo a picanha. O eixo é Famões, concelho de Odivelas. O epíteto de 2 supõe a existência de um Churrascão 1 pelo que cheira a upgrade a piar mais fino com as coisas na brasa. Os convivas vão sobretudo em grupo, são sobretudo jovens, não usam sobretudo mas malhas de ralph lauren quase verídicas e tops de umbigo à mostra mais-valia-que-andassem-todas-nuas-estas-galdérias. A rapaziada esgota os stocks do gel, espuma ou três A's girassol que haja nas redondezas. Elas empastelam-se em madeixas, brincos argola de pendurar papagaio e unhaca brilhante. Todas se bamboleiam, como se fizessem jus aos Gipsy Kings de tubo de escape alargado e luz roxa a pairar. Eles riem alarves, passe a redundância, e comparam modelos de telemóveis que nos outros tempos comparar-se-iam pirilaus mas que o decoro hoje já não o permite embora elas mais-valia-que-andassem-todas-nuas, valha-me Deus. No Churrascão 2 manda o Santo Buffet porque deus é pequenino e está na fila para os rissóis e almofadinhas de carne, à guisa de entrada e à vista de um tupperware de saída. Em quase todas as mesas se cantam aniversários, momento em que se apagam luzes, todo o restaurante canta em uníssono "para dar barraca" e atiram-se bocas de alguma previsibilidade: "agora dá cá bolo", todos o esperavam e no entanto todos riem, enquanto piscam o olho à mais fofa da mesa ao lado. Na sala do fundo joga-se o conceito de zona VIP [very importante pig], ou seja, o tugúrio onde se faz rodízio a preço fixo. Cremalheiras desfeitas e à vista, embrulhadas em maminha, em picanha, em febra transformada por modernidade e necessidade comercial em "secreto" de qualquer coisa. Fio de oiro e cachucho e mulher besuntada em permanente na cadeira adjacente. Aqui joga-se alto, com média de idades a trepar. Há animação "live", uma banda de maduros executa números que fazem a massa humana bailar, assim o álcool aterre nas meninges, empastado em chichas grelhadas e com a cabeça longe do défice, do IVA ou do pacto de varsóvia . Ou de "estava lidade" ou lá o que é. Os bandoleiros, no sentido de membros da banda, desfilam êxitos do Cid, do Emanuel, o Sinatra com o My Way à espanhola, um set de pôr as celulites aos saltos, enquanto os petizes furam por debaixo das mesas, fazendo saltitar o feijão preto nas escudelas. O palco não é neutro - na parede de fundo campeia um registo ao estilo fresco, com o monumental Titanic a dizer olá aos enchedores de pança, oxalá o Churrascão 2 não esbarre no icebergue da indiferença dos odivelenses e similares, por muitos e bons anos. À saída o linguajar redobra, fica-se à beira da estrada a chalacear com as faces rosadas, e vice versa, carros passam e apitam ou lançam os faróis nos máximos como quem pisca o olho cúmplice, "com que então também foram à maminha". Júbilo geral, o tom de festa vai-se desvanecendo enquanto me aproximo do meu carro, morro acima, mesmo em frente à pizzaria Flagrante Delitro. E com isto está tudo dito.