domingo, outubro 16, 2005

Trucidar o olhar

a incursão dupla ao doclisboa foi rija, capaz de deixar marcas. A saber:

Ontem à noite "Massaker", objecto realizado por um triunvirato de realizadores que se empenhou em recolher testemunhos inéditos contemporâneos de seis homens envolvidos nos massacres de Sabra e Shatila em 1982. Num registo absolutamente claustrofóbico, sem narração ou caras visíveis, vem ao de cima uma arrepiante normalidade nos relatos. Nem uma sombra de arrependimento. Nem uma palavra de lamento. Descrições, flashbacks à infância, revelações de relações perigosas com o poder israelita da altura. Um dos carniceiros resume a lógica indiscriminada dos massacres perpetrados pela milícia cristã: "se eu não matar esta mulher, ela vai ter um filho que vai crescer e que ainda me há-de matar. É melhor matá-la já". Nada como uma boa lógica preventiva. Um dos realizadores presente na projecção de ontem respondeu a perguntas no final. Infelizmente a sessão terminou de rompante porque as luzes da Culturgest se apagam automaticamente por volta da uma. Malvados sejam os proformes das instituições bancárias e similares.

Hoje à tarde foi a vez de "Srebrenica - a cry from the grave", filme de 1999. Uma reconstituição milimétrica do massacre de Srebrenica perpetrado pelos sérvios-bósnios em 1995. Dor sem nome e brutalidade máxima à beira do século XXI. Nesta mesma Europa que não se cansa de abrir velhas feridas e que demonstra ter aprendido pouco com os conflitos que a dilaceraram durante séculos. O realizador ancorou o filme em alguns sobreviventes do massacre, tendo todos como denominador comum o facto de terem perdido familiares directos neste acto trágico, que acabou por sobressair pela sua dimensão num conflito que marcará por muitas gerações a região dos Balcãs. Gente a quem só o instinto de sobrevivência lhes vale para se manterem do lado de cá da sanidade. Duplamente chocante é o papel assumido pelas Nações Unidas, cuja inacção é gritante. A actuação do ridículo contingente de soldados holandeses, que, na prática, entregaram à chacina milhares de pessoas, acaba por ser uma consequência grave de um gigantesco encolher de ombros. A obscenidade agrava-se quando os holandeses se despedem em clima de festa da região, quando ao seu redor se praticava o massacre que deveria marcar a consciência europeia por muitos anos. No final, o realizador respondeu a perguntas e afirmou-se pessimista em relação às ilações que se deveriam tirar de Srebrenica - na opinião de Leslie Woodhead uma calamidade destas dimensões pode voltar a acontecer, assim a agenda dos líderes e a realpolitik o permitam.
Ainda houve tempo assistir a outra projecção do mesmo autor na Galeria 2, desta vez um filme mais curto realizado em 2005 e denominado Srebrenica - Never Again?
Assim mesmo, com interrogação.

PS: para ajudar a perceber as várias cambiantes deste conflito, alimentado por ódios ancestrais e religosos e pela actuação muito pouco desinteressada de uma série de países ocidentais, recomendo dois livros de autores portugueses - "O vírus balcânico" de Pedro Caldeira Rodrigues e "Da Jugoslávia à Jugoslávia" de Carlos Santos Pereira. Por alguma razão obscura - talvez a reencarnação - presto muita atenção a esta região. E estes livros ajudam a compreendê-la melhor. Mesmo que não a expliquem.

Da banalidade do mal

na esteira da expressão de Hanna Arendt, ontem assisti a "Massaker" (de que falarei melhor mais tarde) e hoje vou voltar à carga com "Srebrenica - a cry from the grave". A condição humana à luz do dia no altamente recomendável doclisboa. Até já.

sábado, outubro 15, 2005

Com os pés na infância # 3


Arnestina Maçaroca, estrela de cinema

Quotidianos na tela

começa hoje o doclisboa, marco do cinema na capital que já vai na terceira edição. A programação abre com o aclamado "Rize" do fotógrafo David LaChapelle, com lotação já esgotada. Contudo, para os mais atrasados que, como eu, não conseguiram bilhete a esperança não morreu - o filme tem estreia marcada no circuito comercial para o dia 17 de novembro.
Hoje pela noite vou atacar o "Massaker", documento que dá a palavra a seis assassinos envolvidos nos massacres a palestinianos de Sabra e Shatila (Líbano) em 1982 - esses mesmos que tiveram um dedito (ou uma mão inteira) de Ariel Sharon nos seus tempos de falcão às claras. Uma boa forma de fazer a digestão a partir das 23.
Então até loguinho.

Já agora, programação e informações adicionais estão todas aqui. Bom proveito.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Dúvidas de um automobilista lisboeta

Onde raio fica a Primeira Circular?
Verdade de La Palisse

Vieira queria os méritos de ter um blogue de autor. Limitou-se a ser um mero autor de blogue.

Banda sonora para Carlos Silvino
Animais que vão ao Alemanha 2006

os palancas negras


e um certo keeper do montijo

Lisboa em baixa resolução # 26 [gente do meu bairro]


Drama box


E o Nobel de juntar letras vai para um Harold cheio de pinter. Já cirandou abundantemente cá pelos palcos à custa destas formigas obreiras.

quinta-feira, outubro 13, 2005


Música, galhofa e design
Poemas de Outono

chuva aqui
chuva
ali
sol espreita
o Vince
estreita

as autarquias
caem
como folhas
de couve
como um
24 Horas
no top de vendas

fui ver
era Rita Ribeiro
folha caduca
do Hugo Rendas

quarta-feira, outubro 12, 2005

Pontapé na bola em língua portuguesa

Partilho do regozijo com o apuramento de Angola para o Campeonato do Mundo, sobretudo quando falamos de um país que só costuma encimar tops mundais de corrupção ou de minas antipessoais. Só lamento não fazer ideia do que é um Palanca. Muito menos negro.
Amores imperfeitos # 15

era um amor lindo entre juíza e arguido. Lamentavelmente prescreveu.

Cantar para o boneco
Fotossíntese # 1


Estado de espírito
Gostos umbilicais que não interessam ao menino Jesus

adoro as [poucas] canções dos Sonic Youth cantadas pelo Lee Ranaldo.

No posto de escuta

escalavrar o coração em dia de chuvas frias.

terça-feira, outubro 11, 2005

Lisboa em baixa resolução # 25 [para casa]


No posto de escuta

uma rocker em estilo Vesúvio mas longe de estar extinta.
Verdade de La Palisse

Vieira participou na contagem dos votos e ao constatar o resultado da sua mesa compreendeu por que é que se chama urna à caixa onde se enfiam os papelinhos.
Verdade de La Palisse

no país das promessas incumpridas até o anunciado furacão vai passar por cá na forma de umas humildes chuvadas. Há cá demasiadas montanhas a parirem ratos.

Músicas de fé para a ressaca pós-eleitoral

segunda-feira, outubro 10, 2005

Lisboa em baixa resolução # 24 [Ano Internacional da Física]

Dos Links

para a coluna da direita duas novas entradas - a Câmara Corporativa, diário assustador de pensões e outras benesses, e o Funcionamento de certas coisas, sítio conceptual que ainda estou a absorver. Divirtam-se.
De um país a tracção animal

Dos quatro cavaleiros do apocalipse só Ferreira Torres é que não levou a taça. Pior. Ao que parece quem impediu a sua vitória terá sido um construtor civil. O que no fundo vai dar ao mesmo [GRANDE SUSPIRO].
Coisas que marcam

Há muita matéria para falar sobre as eleições autárquicas de ontem. Mas nada me marcou mais do que as madeixas no cabelo de Nuno Rogeiro, o primus inter pares dos comentadores.

sábado, outubro 08, 2005

Serviço Público

o truculento crítico literário João Pedro George (JPG) tomou a seu cargo uma tarefa higiénica que até hoje todos os letrados tinham recusado - leu e criticou com aprumo os livros de Margarida Rebelo Pinto, campeã de vendas convenientemente votado ao esquecimento pelos especialistas que preferem ignorar a existência do fenómeno. O resultado é demolidor e sustentado, demonstrando a perseverança de JPG em desconstruir os segredos do sucesso. Imperdível aqui, no Esplanar.
Amores imperfeitos # 14

ela acusou-o de ter amantes em catadupa. Ele negou e inverteu-lhe o ónus da prova. Ela não sabia o que isso era e suicidou-se.
Lisboa em baixa resolução # 23 [comedores de crianças]